O Medo ou Por que não somos seres racionais?

instituto fluir

O Medo ou Por que não somos seres racionais?

 

Sabe aquela pessoa que não tem medo de nada? Que enfrenta qualquer situação sem nenhuma pontinha de medo? Sem o menor calafrio? Sem nunca se perguntar “será que dá?”, “Será que eu consigo?”, “Será que sou capaz?”.
Só posso dizer que, com certeza, não sou essa pessoa. Muito dizem por aí sobre superar os medos. Aí já me faz mais sentido. Tentamos contornar, minimizar, mas será que não há nada melhor a fazer para que o medo não atrapalhe tanto a nossa vida? Sim, certamente há.
Há muito se sabe da função crucial que o medo desempenha para a sobrevivência, não só dos humanos, mas de tantas outras espécies. Diferente de outras emoções que são tipicamente humanas, o medo constitui um comportamento de defesa tão semelhante ao de outras espécies, que pôde ser largamente estudado em animais, e assim, os mecanismos neurais da identificação e transmissão dos sinais de perigo, e da organização e expressão das respostas às situações aversivas já são bastante elucidados.
Joseph Ledoux dedicou-se a descrever detalhadamente as estruturas envolvidas na reação ao medo, e narra a seguinte situação: Imagine-se andando em uma floresta, quando percebe algo que assemelha-se a uma cobra. (Sim: assemelha-se, já que você ainda não sabe se é mesmo uma cobra, pode ser um pedaço de tronco, mas isso ainda não é considerado pelo seu cérebro nesse momento).
Essa informação percebida do objeto suspeito é enviada, via tálamo, ao córtex visual, onde é processada. Mas desenvolvemos uma via mais rápida, de resposta automática,  um mecanismo que possibilitou nossa sobrevivência ao longo dos anos, já que esses milissegundos de processamento podem custar a vida em um momento de fuga: Assim, um sinal do tálamo é enviado imediatamente para o núcleo lateral da amígdala, que o sinaliza, via núcleo central, para as regiões responsáveis pelas respostas moduladas pelo sistema nervoso autônomo (o que causa aumento da pressão arterial, suor, etc,), e as respostas comportamentais (correr, por exemplo).
Além disso, o hipotálamo deflagra uma descarga hormonal que leva a aumento de glicose, para nos dar uma descarga de energia necessária para a fuga, e para auxílio ao nosso sistema imunológico e de recuperação física.
Esse sistema de defesa envolve a formação de memórias que são adquiridas rapidamente, e preparam os organismos para ameaças futuras.
Nota-se que esse circuito é um atalho, e tudo isso ocorre antes mesmo que essa mesma informação possa ser devidamente processada pelo nosso sistema visual, e antes mesmo que possamos constatar se tratava-se realmente de uma cobra. Antes disso já fugimos. Na maioria das vezes, nunca chegamos a saber se precisávamos mesmo ter fugido.

O fato é que não somos seres racionais

Nosso comportamento é amplamente guiado pelas emoções. As ameaças influenciam e diminuem a qualidade de nossas percepções, de nosso julgamento, do pensamento crítico, além de impedir as condições que promovem a criatividade e a colaboração. E a percepção de potenciais ameaças é aprendida a partir das experiências.
E guia nossas próximas experiências, não só no modo como as interpretamos, mas antes: nossas memórias contribuem para a criação de filtros para nossos sentidos: guiam o que vemos, ouvimos. Criamos uma prontidão para certas experiências, selecionamos o que recebemos do ambiente.
Assim, memórias emocionais se tornam as motivações inconscientes subjacentes a nosso comportamento. Nossas crenças e suposições desconhecidas impedem as visões mais objetivas, as novas perspectivas, e um olhar mais objetivo da realidade.
Há autores que falam de uma imunidade à mudança, que a pessoa adquire mais intensamente quanto mais inconsciente for de suas motivações.
É intrigante constatar o quanto nossas experiências prévias terminam por guiar nossas escolhas de modo muito mais intenso do que podemos imaginar.
Penso que devemos nos perguntar o quanto nossa maravilhosa habilidade de desenvolvermos circuitos–atalhos, que nos possibilitam processar informações de modo rápido e eficiente, podem, por outro lado, nos cegar para as novas experiências.

O que será que estamos deixando de ver? O quanto estamos verdadeiramente abertos para novas experiências?

Por quantas vezes corremos e desistimos de nossos caminhos ao pressentirmos a presença de uma possível ameaça, tão perigosa quanto uma cobra venenosa, e nunca viemos a saber que esta era, na verdade, um inofensivo galho de árvore?
Mas como criar novas e diferentes conexões emocionais e modificar nosso julgamento?
Muitos autores estudam como fazer um refraimming, ou reprogramação. Há quem demonstre a maior ativação dos sistemas reguladores das emoções quando rotulamos as emoções, criando condições de um olhar mais objetivo da realidade.
Um certo consenso existe com relação aos benefícios de buscarmos maior distanciamento das situações, e de nomearmos as emoções, o que envolve o processamento não tão imediato das informações iniciais. Mas, com certeza um passo importante é o reconhecimento de nossas pré-seleções.
O que sabemos sobre plasticidade, condicionamento e des-condicionamento? O que nos possibilita mudar, seja nossa vida pessoal ou as comunidades e organizações? Qual o papel dos grupos e das intenções?
São assuntos que dão pano pra manga.
Conte suas opiniões e sugestões!
Publicado originalmente em http://fluirblog.blogspot.com.br/2014/06/o-medo-ou-por-que-nao-somos-seres.html